ARTIGO: Meus livros e suas entrelinhas, por Shelly Bronstein

Diretora de Parcerias da RD Station, Shelly Bronstein divide suas experiências como autora de dois livros e dá dicas para quem quer publicar o seu


Chega a ser engraçado admitir, mas refletindo sobre a publicação dos meus livros a convite do portal Resultados Digitais, vejo que o primeiro deles talvez tenha sido fruto de uma ligeira crise da meia idade. Os 4.0 chegaram para mim com muito mais alegrias do que angústias, mas ao mesmo tempo me trouxeram uma noção bastante concreta e palpável da passagem do tempo. 

Por mais alarmista que possa parecer, comecei a perceber que não havia muito mais tempo para adiar sonhos e cultivar medos bobos. Foi nesse estado de espírito dos “enta” que resolvi tomar coragem para compartilhar com as pessoas ao meu redor alguns textos escritos ao longo dos anos, quando eu usava a escrita como um processo terapêutico, uma espécie de psicanálise sem o analista. 

Foram anos engavetando uma infinidade de poesias, contos e crônicas que escrevia para tentar compreender alguma angústia escondida, elaborar o pensamento bagunçado ou pelo simples prazer de escrever. Esses textos ficaram durante muito tempo esquecidos por mim, empoeirados em uma pastinha amarela de uma estante virtual, movendo de desktop para notebook, de notebook para HD externo, de HD externo para a nuvem.

 

Saindo da gaveta

Neste novo mood de ressuscitar sonhos adormecidos e com um olhar menos autocrítico e menos preocupado com a opinião alheia, resolvi finalmente sair da gaveta. Em poucos meses, vivi um processo criativo de reencontrar ideias antigas e quase irreconhecíveis, escrever novos textos, organizar todo aquele material em formato de livro. 

Vivi também um processo não tão glamuroso de buscar editoras e entender quais as possibilidades para viabilizar um projeto sem grandes ambições comerciais.  Felizmente elas existem e, em novembro de 2017, reuni familiares e amigos para o lançamento do livro “Autoterapia: 40 anos, 40 textos” na livraria Cultura, a minha favorita em São Paulo, em um momento inesquecível de celebração da liberdade de ser quem somos, em nossas diferentes facetas.

Shelly Bronstein lançamento de livro

A autora durante o lançamento do seu primeiro livro, em 2017 (Foto: Arquivo Pessoal)

Em princípio, achei que o projeto estava concluído, e o sonho já tinha sido realizado: check! Não tinha me caído a ficha de que aquilo, na verdade, havia sido apenas o ponto de partida de uma expansão interna muito maior. Voltar a escrever acabou sendo um respiro de subjetividade extremamente bem-vindo para a minha rotina intensa e pragmática de executiva de marketing em uma multinacional e mãe de duas crianças pequenas. 

O exercício da escrita passou a me trazer momentos de relaxamento, introspecção, silêncio e passou a agregar novas dimensões à minha vida. Comecei a perceber que eu não precisava esperar uma emoção muito aguda bater na minha porta para me sentir inspirada. A inspiração poderia vir também de uma prática intencional e de um olhar mais apurado para o cotidiano, afinal a vida não é aguda, a vida é crônica,  ela acontece todos os dias.

Existe beleza e humor também na reunião semanal, no dentista das crianças, na ida ao supermercado e até na ingrata tarefa de preencher a declaração do imposto de renda. Comecei a escrever sobre tudo o que me atravessava, mesmo nas situações mais prosaicas do dia a dia. De repente, me vi contribuindo como colunista para alguns portais de comportamento e para um blog próprio, o que acabou levando ao meu segundo livro, “A vida é Crônica“, uma coletânea de crônicas escritas entre 2018 e 2019, publicada pela Editora Trevo no segundo semestre do ano passado.

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Relatos da pandemia

Aliás, 2020 foi um ano triste e impensável, mas também provavelmente o período da minha vida no qual mais escrevi. Poucos dias depois do início da quarentena, me peguei angustiada, precisando elaborar aquelas sensações e aquele momento maluco que estávamos vivendo.

Tive a ideia de me corresponder com uma amiga psicanalista, apaixonada pela escrita, assim como eu. Entre março e setembro partilhamos um pouco dos nossos mundos internos, encapsulando parte das vivências, experiências e reflexões deste período tão peculiar que estamos vivendo em um manuscrito que batizamos “Quando tudo passar”.

Ainda não sei se ele irá virar livro, mas me pergunto: será que a escrita é uma tentativa de imortalizar um pequeno recorte de existência? Escrever é algo que faço por prazer e pela simples necessidade de ser inteira, como quem canta ou toca um instrumento.  

Ao mesmo tempo, fico fascinada em pensar que no futuro, quando a pandemia do coronavirus for apenas um parágrafo frio e distante em um livro de história, alguém poderá imaginá-la nas suas diferentes camadas também através das lentes de testemunhas que usaram a linguagem para congelar um pouco de vida. 

Acho que um livro, independentemente de ser ficção, biografia ou não-ficção, talvez seja exatamente isso: uma tentativa humana de congelar um pouquinho de vida. 

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O primeiro passo

Poucos anos depois da minha suposta crise da meia idade, acho surpreendente olhar para uma estante especial que tenho aqui em casa e ver que hoje tenho dois livros publicados, além de uma contribuição para uma antologia de poesias (Poesia Agora, publicado pela Editora Trevo em 2018).  

Percebo que o momento chave que engatilhou essa jornada foi ter decidido criar coragem de compartilhar aqueles meus primeiros textos. Foi como ter dado um passo no vazio para que só então o chão pudesse se materializar em um caminho possível.

Então, para encerrar este artigo especial para o Dia do Livro, se eu pudesse dar algumas dicas básicas para quem tem o sonho de publicar o seu, estes seriam sem dúvida os pontos de partida:

1 – Não tenha medo de começar

Coloque-se em movimento: crie um blog, compartilhe suas reflexões sobre negócios no LinkedIn, envie um conto ou uma poesia para um concurso literário, enfim, tenha a coragem de dar o primeiro passo, se ele qual for.

2 – Escreva, escreva, escreva…

Tenha disciplina e crie uma rotina regular para o exercício da escrita (um pouco todos os dias, uma vez por semana, etc.). Abra espaço na agenda, mesmo que sejam duas horinhas no final de semana. Não espere passivamente o momento de inspiração. Quanto mais você escreve, mais se sentirá inspirado para escrever.

3 – Saiba como e onde publicar

Familiarize-se com as opções possíveis para publicação e pesquise as editoras que se alinham com o tipo de conteúdo que você está produzindo. Existem opções que vão desde a autopublicação até as editoras tradicionais.  

Hoje em dia, no entanto, as editoras tradicionais – aquelas que arcam com todos os custos e prestam a gama completa de serviços ao autor – costumam investir apenas em livros de autores já famosos ou com uma audiência já criada, com risco menor para seus negócios. 

O lado bom é que existem diversas opções no meio do caminho entre publicar de forma independente ou com as grandes editoras comerciais. Existe uma infinidade de editoras menores, com foco em nichos específicos que também podem ser boas aliadas neste processo de publicação.  

Feliz Dia do Livro!

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Comentários

2 comentários

  1. Denise Zaclis

    Eu como “mami” orgulhosa desta talentosa escritora e cronista me sinto feliz e realizada em poder em vida estar presente nos momentos do desabrochar da minha filha nos seus “ enta “ anos de amadurecimento. Que bom que você se “ desengavetou “ por agora, bom para você e todos nós, seus eternos leitores.

  2. Ariel, Itu.

    Shelly,
    Adorei seu artigo, você escreve maravilhosamente, bem, muito gostoso ler seu texto. Seu estilo é muito atraente, prende a atenção do começo ao fim. Posso apostar que isso se deve a muita leitura. Além da firma, o conteúdo é fascinante. Acho que a partir de agora vou dedicar um tempo regular à escrita, embora esteja muito longe do seu talento. Muito obrigado pelos preciosos ensinamentos.